segunda-feira, 5 de outubro de 2015

São Bento, São Pedro, San Iker

Sempre defendi que política e futebol devem ser como água e azeite -- e não como água e sal, como realmente são. Dois campos de tal forma dissolvidos um no outro, que não se percebe com clareza onde se ergue a fronteira entre ambos. Duas esferas que, devido às próprias enfermidades, deveriam estar em alas diferentes do asilo. Contudo, como o respeito não abunda, nem pelos portugueses, nem pela verdade, lá tivemos um domingo eleitoral e futebolístico ao mesmo tempo, algo nunca antes visto por cá e que deixa um certo saveur a Estado Novo, quando o futebol era utilizado como instrumento de alienação das massas.

Um domingo tão crespo que pôs o santo Pedro (o divino, não o da divina comédia) a chorar compulsivamente, com dó dos habitantes deste rectângulo à beira-mar prostrado. Por uma miríade de motivos, foi-me impossível assistir à partida pela televisão, tendo o coração ligado à máquina, que é como quem diz o livescore, algo que odeio profundamente. Um camarada meu baptizou-o engenhosamente de “futexto”. Ou a pior forma de acompanhar uma partida de futebol. Relembra-me aquelas tardes de domingo passadas a assistir modalidades de pavilhão no Canal 2 só para camuflar a ansiedade oculta de que ver surgir aquela bolinha no canto do ecrã que anunciava o golo dos jogos do campeonato. Não saber o que passa quando sabes que se passa alguma coisa é corrosivo para o nervo.

Mas vá, as pulsações normalizaram na segunda parte, quando o frasco do ketchup perdeu a tampa e os golos sucederam em catadupa. Primeiro Corona, depois Brahimi, cujo nome é parecido com Brahma, a bejeca brasileira, e que me fez pensar que no Dragão estava em curso uma verdadeiro Oktoberfest. De seguida, uns vinte minutos sem nada no telemóvel e, finalmente, Osvaldo. O tal que veio passar férias a Portugal e que parece demasiado ativo e empenhado para um procrastinador. Até abraçou o roupeiro. No FC Porto, engoma-se com classe. Quando o pensamento já estava em Varzim, marcou Marcano. O espanhol já merecia o golo, por todos aqueles que tem ajudado a evitar aos adversários. Tem sido imperial neste início de temporada, sendo um dos elementos mais discretos desta formação. E discreto é o supremo elogio que um defesa-central pode receber. Não está lá para ter protagonismo, mas para o roubar. Cumpre quase sempre.

Já esta segunda-feira, Casillas revelou aquilo que já todos líamos na sua expressão: está a desfrutar novamente dessa mui nobre arte de jogar à bola. Madrid estava demasiado radioactivo para o lendário guarda-redes espanhol, que ontem voltou a evitar males maiores à equipa ainda antes dos motores estarem plenamente aquecidos. Gosto disto. Há portismo a crescer dentro deste homem. Quem diria?

Aliás, se há um ano me dissessem que, em 2015, Jesus ia para o Sporting, Maxi para o FC Porto, Casillas estaria a defender a baliza do Dragão, o nosso meio-campo teria uma contratação de 20 milhões, Aboubakar ia fazer esquecer Jackson Martinez ou o PAN ia eleger um deputado para a Assembleia recomendaria de imediato o internamento desse indivíduo no Júlio de Matos.

Dado que não vi o jogo, salto as apreciações individuais. Recomendo, contudo, uma passagem pela coluna Bluegosfera aqui ao lado, onde estão disponíveis algumas prosas saborosas, que vos ajudarão a passar agradavelmente um dia mais cinzento do que o negócio da porta 18. Consolidamos a liderança, mas não nos livrámos do empecilho parceiro desta coligação inusitada e indesejada. Ainda.

Quanto às legislativas, bom. Algo me diz que não ficaremos por aqui. A coligação Portugal À Frente venceu na urnas, mas perdeu no Parlamento, falhando a maioria absoluta, o que deixa o futuro em São Bento sob suspense. Se a esquerda se mantiver fiel à sua filosofia, não haverá blocos centrais. O que fará com que este governo veja o seu programa eleitoral vetado no Parlamento. Mesmo que subsista, enfrentará uma maior dificuldade na aprovação de novas reformas económicas. Tudo muito bem embrulhado poderá redundar em eleições antecipadas daqui a um ano. Tem a palavra o sr. Presidente da República.

Não, não me esqueci de ti. Guardo sempre o melhor para o fim. Rápidas melhoras, campeão.

Goleada, três pontos, vitória antes da paragem, liderança. Perfeito.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Hipocri-Leaks

Caiu que nem uma bomba em Hamburgo, sob o falso signo da imparcialidade clubística e aparentemente preocupado em expor a face oculta do futebol português.

Debaixo do sugestivo nome Football Leaks, ei-lo, o novo Assange dos relvados tugas, autoproclamado purgador das impurezas do dirigismo português, que se diz farto de “fundos, comissões e negociatas” da modalidade em Portugal. Whistleblower dixit.

Nada contra e até aplaudiria este projecto noutra circunstância, não houvesse por detrás de todo este teatro de vigilantismo um aspeto que o desmascara e descaracteriza: a agenda do autor. Mais encarnada do que as paredes de Pamplona depois de uma tomatina.

Não suporto ideais movidos a hipocrisia. Detesto protótipos da razão fundamentados em ópticas pessoais e não em valores universais.

Depois, mesmo que o observador não consiga escapar às suas próprias inclinações, não basta escolher um nome que cola, colocar a máscara de Guy Fawkes, disparar uns quantos chavões da ética e no final remover apenas parte do cancro. É preciso extraí-lo todo. A justiça não é uma sinédoque. A justiça não admite cartilhas.

Mas este jovem diácono que decidiu exorcizar o futebol português traz mais do que a mera missão de equilibrar a balança. Pretende fazê-la pender para o lado que lhe convém. Ou que convém ao seu coração.

O referido site, que em menos de 24 horas, abriu todas as torneiras de Alvalade, despindo praticamente todos os negócios controversos do Sporting, quis provar a sua equidade, mostrando que o seu leque também cobre o FC Porto e o Benfica.

Um projecto interessante com uma agenda interesseira.

Só que no caso do primeiro, o blog diz apenas meia verdade. Alerta que o FC Porto detinha, a 15 de Setembro, uma dívida de quase €10 milhões relativa à transferência de Giannelli Imbula. Mas não diz o resto.

Já não é a primeira vez, nem será a última, que o FC Porto falha datas de pagamentos contratualizadas, precisamente porque há quem esteja na mesma situação para com o FC Porto. O dinheiro ainda não nasce das árvores, pelo menos, no Norte do país.

Além disso, o respectivo autor do leak esqueceu-se do mais importante. Actualizar-se. Que é o mesmo que dizer: desviar e digitalizar a missiva mais recente enviada pelo Marselha ao FC Porto, que data de 24 de Setembro. Exactamente aquela que confirma a recepção dos pagamentos em atraso, anulando assim a dívida de €9,65 milhões ao clube francês. Talvez o scanner do pirata tenha metido água inoportunamente.

Já em relação ao Benfica, o site usa a verdade para reforçar a mentira. Ou seja, assiste-se a uma espécie de fogo posto e apagado logo de imediato.

A história foi seleccionada a dedo. Quase apetece falar em toque de Midas para recuperar uma expressão tão celebrizada aqui na 2ª Circular. O ERPA, ou acordo de participação do fundo (no caso, a Doyen) nos direitos de um jogador (o protagonista é Ola John), "denunciado" pelo whistleblower é provavelmente um dos negócios menos interessantes que o espólio de relíquias benfiquista tem para oferecer nessa matéria.

No fundo, a aquisição de Ola John foi um processo muito semelhante à contratação de Brahimi pelo FC Porto. O clube paga e depois cede uma parte do passe, que no caso do Benfica foi a totalidade.

A exposição em nada belisca o Benfica; pelo contrário. Passa um atestado de competência a Luís Filipe Vieira, que, pelo que conta a documentação, conseguiu amortizar o prejuízo de um jogador de dois dígitos de milhão que pouco ou nada rendeu no clube, imputando o risco a um fundo de jogadores. Pausa. É aqui que aplaudimos?

Este negócio até pode fazer o presidente do Benfica corar pelas voltas que o passe deu na máquina de lavar, mas está longe de expor qualquer fissura que não fosse conhecida sobre os contornos da dita transferência.

O Football Leaks afirma querer "mostrar tudo". Mas, por vezes, mostrar tudo é uma boa forma de esconder o essencial.

Rei Midas.
Não menos inocente foi a forma como toda esta documentação chegou à mãos de individualidades ligadas... ao Benfica, há várias semanas, ainda antes da existência do referido site. Isso ou Pedro Guerra e António Simões assinam a newsletter dos Anonymous.

Em todo o caso, o propósito destas fugas de informação é claro: desestabilizar dois alvos em particular e camuflar outro.

Não viro a cara ao problema interno. Preocupa-me o rombo na blindagem no caso do FC Porto, pois é inconcebível que informação desta natureza caia nas mãos erradas. Não é um bom princípio, mas é evitável.

Nope. Não sou seguidista. Folgo em saber o que se passa dentro do meu clube. Contudo, não acredito na idoneidade de quem cava de um lado para tapar buracos do outro.

Para o autor do recém-criado blog, que diz pretender desparasitar o futebol nacional, deixo alguns desafios. Todos simples, para quem parece ter o dom da ubiquidade:

i) que tal levantar um pouco mais do véu sobre os telefonemas que o ex-árbitro Marco Ferreira tentou denunciar ao país?
ii) que tal escrutinar as várias vendas de €15 milhões do Benfica, sem que as mesmas tenham sido comunicadas à CMVM, como exige a lei dos títulos cotados em bolsa?
iii) que tal elucidar como funciona realmente a relação Jorge Mendes/Benfica?
iv) que tal colocar a nú o mercado de commodities da porta 18 ou as escutas do Apito Vermelho?
v) que tal explicar como alguns membros afiliados ao Benfica chegaram à posse dos referidos documentos antes de os mesmos caírem no espaço público? Existe uma comissão de censura no Football Leaks? Um lápis azul? Ou será vermelho?

Para já só Doyen, FC Porto, Sporting, Imbula, Falcao, Mangala e Defour. De outras latitudes, zero.

Ansiosamente à espera de novidades.

A podridão não grassa apenas onde o coração não sente. A menos que sejamos desonestos a ponto de não conseguir olhar para dentro. Se é esse o caso, mais vale arrumar a capa na gaveta. Heróis com agendas nunca salvaram o que quer que fosse.

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Nota Final I: Quem me acompanha já terá certamente notado que não tenho analisado os jogos do nosso FC Porto na Liga dos Campeões. Isto porque, infelizmente, só consigo ver 20 a 30 minutos dos referidos encontros, o que me deixa sem qualquer hipótese de fazer uma avaliação correcta, fundamentada e estruturada, de forma atempada das noites europeias do Dragão. De qualquer forma, na coluna desse maravilhoso mundo que é a Bluegosfera é possível encontrar óptimas leituras sobre a vitória de terça-feira, ante o Chelsea.

Nota Final II: A Assistência ao Cliente da BuzzTrade.com não mentiu e a empresa deu uma conferência de imprensa conjunta com o clube a anunciar a parceria esta semana. Para já, cai o mito. A BuzzTrade não será o principal patrocinador do FC Porto este ano. Expectável.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

1893

Mil oito noventa e três.

O timbre dos algarismos ecoa repetidamente na mente.

Carregam o poder de me despertar da letargia em que me encontro.

Faça chuva, vento ou uma improvável tempestade de areia à George Milller, sorrio.

Nada é eterno. Nem o meu FC Porto. Extinguir-se-á um dia, mesmo que resista até ao fim dos tempos, quando o sol desistir de pulsar.

Afugento estes demónios existenciais de pensar no futuro após o futuro. Foco-me no presente.

Recupero uma antologia antiga da prateleira. Assenta-lhe bem a poeira. Confere-lhe peso. Quase me sinto indigno de tirar aquela capa empedernida do repouso secular.

1893, lê-se.

O ano em que se "apurou um grupo rijo de jogadores para medir-se contra os clubmen de Lisboa".

Raça que se perpetuaria no tempo, afrontando a tão humana mortalidade.

Invade-me uma profusão de sentimentos. Ali entre o orgulho e a nostalgia. Recordo mil golos, vitórias para lá do que é possível contar.

Resgato fotogramas encravados na memória sideral. Onde nem licença tenho para entrar voluntariamente.

Deixo o subconsciente apoderar-se de mim e gozar aquele momento. Folheio páginas que sei de cor, que leio antes de os meus olhos abraçarem as palavras.

É um livro velho, comprado num alfarrabista septuagenário ou esquecido no meio de uma herança qualquer.

São as minhas Teses de Abril. A minha Bíblia. O meu Conto de Duas Cidades, a minha e a do meu coração.

Cravejado de defeitos e feitios difíceis. Estórias mal contadas, histórias bem adornadas. Sucessos, acima de tudo, sucessos. A quintessência do meu FC Porto desdobrada em signos, palavras e epígrafes que marcaram o seu passado.

Deixo-me envolver.

Rendo-me a um passado de honra e de luta que pagava para viver. Sinto o aroma do couro gasto que não existe. Na verdade, é mais uma armadilha do cérebro. Amante de uma cultura tão própria.

Nobre, diferente, invicta. Acima de tudo, nossa. Entrego-me ao sentimento de pertença e a tudo o que ele encerra.

Recordo o anteontem, o ontem e prenuncio o amanhã. Penso no quanto me alegras, irritas e no quanto anseio ver-te de novo. Uma e outra vez.

Podes fazer-me sofrer como nunca.

Mas eu vou estar cá sempre.

Parabéns.


sábado, 26 de setembro de 2015

MFC 2 x 2 FC Porto: Estranha forma de vida

À hora a que vos escrevo esta análise ainda sinto a alma vazia. Já não são nervos, mas decepção. Tento encontrar a melhor forma de descrever o que aconteceu em Moreira de Cónegos, não consigo. Julgo que o texto de hoje vai acompanhar a mediocridade da equipa de ontem. Mas ao contrário deste FC Porto de Lopetegui não vou andar a dar voltas ao relvado para chegar onde quero. Vou optar por por uma solução mais directa e eficaz de diagnosticar o problema. Precisamente o que os dragões deviam ter feito ontem.

O clássico não mentiu. Os momentos de brilho deste FC Porto escondem sérios problemas. Daqueles que comprometem mais do que apenas um jogo. No Comendador, não é a primeira parte cinzenta ou a falta de criação que preocupa. Estávamos cientes das dificuldades desta partida e só por muita ingenuidade alguém poderia pensar que este jogo se tornaria fácil. O mar de sofrimento era expectável. Até por estar ensanduichado entre dois dos encontros mais importantes da temporada: Benfica e Chelsea. Não, o que faz arrancar cabelo é a alma quebradiça destes jogadores.

O FC Porto 2015/16 tem duas condições do que começam a espoletar imensa comichão nos adeptos: sonolência e tremedeira, sobretudo fora de casa. Mas se a primeira é apanágio deste dragão quando se apanha a vencer e já sucedia, em maior ou menor grau, com outros treinadores ao leme, a segunda é uma novidade aterradora, que só estava habituado a ver noutras paragens. É inconcebível que uma equipa como a nossa, depois de fazer tudo e tudo fazer para chegar finalmente ao 1-2, se tenha diminuído perante um Moreirense. Mas desde quando? De onde herdámos esta súbita ansiedade? Onde pára aquele FC Porto que não deixava fugir vitórias? Perturbador.

A inoperância desta equipa chega a atingir níveis incompreensíveis, sobretudo porque a mesma já nos mostrou que pode fazer bem, mas bem melhor. Isto já não é fado. É culpa própria.


MAIS
André André: Foi dos poucos que foi transportando com sucesso a equipa para a frente. Faltou-lhe Imbula no apoio, uma vez que Herrera passou ao lado do jogo. Inconformado de sangue, André André foi preponderante no assalto ao segundo golo e voltou a vincar, uma vez mais, a importância de ter um jogador de combate no onze. Não sendo criativo nato, André André mostra dificuldades a decidir rápido, sobretudo em espaços curtos e sobrepovoados, como foi ontem a linha média do Moreirense, que plantou quatro homens no meio-campo. Contudo, o jogo do FC Porto tem passado cada vez mais por ele e pelas suas acções transversais em campo. É o pêndulo da equipa, garantidamente.

Maicon da primeira parte: Eficaz a defender e forte no passe longo. Esteve atento, concentrado, sem disparatar e ainda mostrou aos companheiros o segredo para bater aquele que é, sinceramente, um dos guarda-redes mais frágeis da primeira Liga: rematando. Excelente golo de livre directo, que demonstra treino e empenho do jogador em trabalhar esse capítulo. Quase apetece dizer que Maicon é o único que aparece na cadeira de Bolas Paradas, pois foi igualmente de uma cabeçada sua que saiu primeiro lance de perigo através de um canto que o FC Porto produziu em meses.

Casillas: Fez o que podia ter feito. Adiou o que começava a parecer inevitável até onde foi possível. Mas quando um tanque como André Fontes lhe surge, sem marcação e com embalo, apenas dois metros à sua frente, é desonesto pedir-lhe mais. É um redes de craveira mundial e tem-no provado desde que chegou ao FC Porto. Foi um dos que sacudiu males maiores ao FC Porto no clássico e, ontem, pela sua cara depois da partida, deve ter sacudido aquele balneário no final dos 90'. Com razão.

Danilo: Boa presença física e sempre muito disponível no seu raio de acção, foi eficiente na contenção a Gomes e Battaglia, que minaram sempre o seu território e não lhe permitiram grandes incursões no ataque continuado.


MENOS
Herrera: Era capaz de jurar que ouvi Job a gritar com ele ontem. Herrera é exasperante. É fácil perder a paciência com o mexicano. Porque não estamos a falar de um tipo que foi convidado à última da hora para fazer uma perninha no Moreirense x FC Porto. É um profissional de milhões. E para os milhões de que estamos a falar, a forma como erra passes simplicíssimos, falha recepções básicas e demora a executar é inaceitável. Passou uma hora a navegar na maionese, parecendo mais preocupado com a infinitude do universo do que em pressionar o adversário e em não deixar fugir Battaglia. Confesso que antevi isto tudo aos cinco minutos, quando o mexicano desperdiçou um dos centros mais fáceis da sua carreira e que tinha tudo para acabar na cabeça de Osvaldo. Herrera não sabe lidar com os próprios erros. E creio que nunca se libertará disso. Neste momento, é apenas mais um jogador do plantel, o que faz dele um jogador a mais.

Lopetegui: Há uma razão para um plantel ter 25 elementos e não apenas 11. A rotação promovida por Lopetegui era necessária e não me pareceu exagerada. Dada a carga física dos dois jogos que balizavam este encontro, era importante fazer descansar alguns dos jogadores mais expostos ao esforço. Não é por aí. O problema é a incoerência do técnico basco na leitura que aplica ao jogo em partidas diferentes. O mesmo treinador que tirou Varela antes do intervalo contra o Estoril, manteve um Herrera bem pior em campo durante cerca de uma hora. A verticalidade do mexicano é incompatível com espaços demasiado exíguos e pouco terreno para correr. Lopetegui sabia disso. Ainda assim, preteriu de Evandro, Sérgio e até Bueno na convocatória. Depois, voltou a insistir em alterações posicionais que partem a equipa. Nos últimos 180 minutos, o FC Porto apresentou quatro desenhos tácticos diferentes. Colocar a carne toda no assador a vinte minutos do fim deu frutos. Mas este FC Porto está programado para reagir e não para agir, o que por si só é um mau princípio. Pede-se mais, Lope. E tu tens capacidade para isso.

Maicon da segunda parte: A concentração e assertividade do brasileiro ficaram na cabine ao intervalo. O golo de Iuri nasce de uma triangulação do Moreirense só possível pela precipitação de Maicon, que ataca o espaço vazio e convida o avançado português ao sprint. Líder dentro de campo, Maicon deve ser a voz que equipa precisa quando procura tranquilidade e não um exemplo desse mesmo nervosismo. Acabou por se afundar lentamente no mar de mediocridade da equipa e a lesão também não ajudou, forçando-o a fazer os últimos dez minutos em esforço.


Momento: Minuto 84'. Maxi alivia uma bola para as couves. Minto. Devidamente corrigido pelo SilvaAboubakar isola Osvaldo com um belíssimo passe, com o italo-argentino a atirar de pronto para uma baliza deserta, sem Stefanovic. Seria golo se André Micael tivesse desistido do lance. Um pormenor que mudaria tudo. Mas que não explica nada. É eufemismo apontar a culpa do resultado ao triste fado ou à embirração do destino com o FC Porto. Cabia-nos fazer muito mais do que esperar que bolas pingadas na área dessem descanso. Fomos nós quem descansámos após o primeiro golo e nunca mais vivemos descansados depois do segundo. Outro FC Porto, que não este, impediria que o nervo se instalasse na recta final. Mas fomos pequenos precisamente quando urgia que nos agigantássemos. 


Pormenor: Já não consigo perceber se o abalo sísmico de Kelvin aos 92' foi uma benção ou uma maldição. Ou ambas. É que desde essa noite memorável como nenhuma outra, o FC Porto nunca mais voltou a marcar em cima ou para lá dos noventa, oferecendo-nos uma daquelas vitórias que parece ter sido salva de um avião segundos antes deste se despenhar. Daquelas que valem campeonatos. Digo isto porque senti, logo após o 2-2 aos 87', que o resultado estava feito. E ainda me lembro dos tempos em que havia esperança noutro desfecho. Em que sobrava sempre mais um sopro de vida para conquistar a vitória. Este FC Porto reage mal a resultados adversos. E, ontem, até foi alérgico à vantagem.

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Depois da vitória no clássico, era importante dar continuidade à senda, até porque o este dragão tinha o hábito de cravar as garras na liderança. Não aconteceu e vamos, certamente, cedê-la hoje.


Lopetegui tem muito trabalho pela frente, sobretudo pedagógico. Este plantel do FC Porto possui em potencial o que tem em fragilidade. Se Lopetegui não for cola para unir os cacos, vamos ver o FC Porto perder mais pontos fora de casa. Todos os medos são progressivos. Crescem e diminuem conforme as experiências que vivenciamos com eles. E chegaremos à conclusão que somos o nosso maior receio.

Vamos ter mais de um mês para preparar novo embate contra este recém-criado fantasma. Só voltaremos a sair de casa a 31 de Outubro, na deslocação à Madeira, para defrontar a União. Cabe ao treinador capitalizar esse tempo. É fundamental mostrar-nos a nós próprios que o dragão não é raquítico.

Estranha forma de vida tem este meu FC Porto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Armadura sem carimbo

A camisola 2015/2016 do FC Porto continua de proa vazia.

Atípico, sobretudo para uma modalidade onde tudo é cada vez mais comercializável. Mas não propriamente preocupante.

A falta de patrocínio é, para já, mais problemático para quem quer patrocinar do que para quem quer ser patrocinado.

Do ponto de vista do clube, já se cumpriu uma boa parte do orçamento através dos proveitos operacionais obtidos na época passada, para os quais contribuiu a excelente prestação global da equipa na Liga dos Campeões, aos quais se junta o recorde de receitas com vendas de jogadores, que só em 2015 ultrapassaram a barreira dos 100 milhões.

Do ponto de vista de um patrocinador, já se perdeu uma oportunidade de exposição na maior montra mediática do futebol mundial -- jogo da Champions -- e há obuses de marketing como Iker Casillas ou Dani Osvaldo para disparar.

O tempo corre a favor dos dragões. Disse-o, há uns tempos, nesta análise do Porto Universal ao assunto: se o FC Porto, coleccionador de títulos e recordista de presenças na liga milionária não fosse um fruto apetecível às marcas, o que seria?

Reconheço que, quando vejo esta turma entrar em campo sem carimbo na armadura, não escondo uma certa satisfação por isso. A camisola imaculada do ferrete corporativo agrada-me. Vê-los passear aquele tecido puramente azul-e-branco no relvado é uma quase homenagem à memória de outras décadas.

No entanto, sponsor é um palavrão necessário para a tesouraria. Mais dia menos dia, aparecerá.


Sendo o segredo a alma do negócio, o nome do próximo patrocinador vai permanecer na sombra até o FC Porto alcançar um acordo com um novo parceiro. Enquanto isso não acontece, interessa fazer o balanço da situação, formulando as extrapolações possíveis. Isto para clarificar também alguns pontos que, noto, têm levantado certas interrogações na assembleia virtual portista.

Um alerta. Não visa este post especular sobre nada em concreto, até porque o Do Calcanhar à Trivela está longe de ser um fontanário. O objectivo é somente enquadrar os rumores actuais nos factos existentes. Para o exercício que se segue, juntei os retalhos mais ou menos fundamentados que se foram dando a conhecer nestas últimas semanas e usei-os para tecer algumas conclusões preliminares.

Vamos a elas:

NOVO BANCO: 
Ou banco "bom" para os amigos. Surge da insolvência e divisão do antigo Banco Espírito Santo em duas partes. Foi um dos primeiros nomes ventilados em alguns círculos, pela ligação umbilical dos clubes portugueses à banca, mas nunca foi -- em boa verdade -- uma opção considerada. Embora seja promovido como a biblioteca de activos saudáveis resultantes da triagem feita à "Salganhada" que ia no BES, o Novo Banco é na verdade um banco de transição, à procura de um comprador que o recapitalize o mais rapidamente possível. A instituição, agora na posse do Banco de Portugal e sustentada pelo Fundo de Resolução, foi alvo de um rebranding instantâneo e barato, que mais não serviu do que para lavar a cara das acções dos anteriores donos. Uma espécie de duche rápido para ficar cheiroso aos antigos clientes e... a novos investidores. Isto leva-nos à Fosun.

FOSUN: 
A hipótese Novo Banco existia, mas não através da marca Novo Banco em si. Ou seja, apenas a venda da instituição ao grupo chinês de investimento Fosun International abriria a possibilidade de o FC Porto ser patrocinado pela nova face de um banco a precisar de projecção para crescer no mercado nacional. Mas essa operação não se concretizou. No início deste mês, a Fosun entrou em conversações com vista à aquisição do Novo Banco, mas o Banco de Portugal considerou a proposta chinesa insuficiente, tendo abortado o negócio. Isto já depois de goradas as negociações com a Anbang, outro conglomerado chinês, também por falta de acordo entre regulador e candidato. Ora, a Fosun tem-se mostrado extremamente agressivo no mercado ocidental e já anunciou a intenção de ingressar em vários sectores do mercado além da banca. Por norma, a Fosun não perde muito tempo com partos difíceis. Para já, parece ter desistido da banca portuguesa. Além disso, o Banco de Portugal já anunciou que só retomará o processo de venda do Novo Banco a partir de 2016. Por isso, e pelo estado do restante sector bancário em Portugal, dificilmente o próximo patrocinador do FC Porto será uma instituição financeira.

SAMSUNG: 
A gigante tecnológica sul-coreana já é um dos principais parceiros do FC Porto. Tem uma série de parcerias com o clube e vai aparecendo cada vez mais destacada nos eventos dos dragões. No último clássico, aproveitou o palco do Dragão para estrear uma tecnologia pioneira de transmissão dos jogos de futebol em realidade virtual. A própria marca parece estar a estreitar laços com a cidade, tendo reforçado a aposta no Grande Porto com a abertura de duas novas lojas em Maio deste ano. Curiosamente, foi no mais circunscrito circuito das redes sociais portistas que o rumor ganhou força, tendo sido inclusive suportado por alguns dos gurus do insidismo. Vale o que vale. O facto é que a relação entre a Samsung e o FC Porto está a crescer e a empresa sul-coreana está no meio de uma frenética space race contra a californiana Apple pela hegemonia do sector dos smartphones, apostando em força na publicidade. Iker Casillas, por exemplo, foi uma das caras da Samsung nos últimos anos. Nota ainda para uma outra situação que pode ser determinante neste cenário. A Samsung terminou este ano o milionário contrato de sponsorship que a ligava ao Chelsea (ao qual pagava cerca de €21 milhões por temporada), agora apadrinhado pela Yokohama. Perdeu o big fish publicitário e principal bandeira desportiva da marca dos últimos anos, mas ficou mais financeiramente mais disponível para investir. Um último dado, talvez menos perceptível mas relativamente importante: a proximidade estética entre as marcas FC Porto e Samsung. Ambas têm no azul um símbolo, o que facilita desde logo o matrimónio de cores na t-shirt principal. Pormenores que não decidem, mas pesam.

QATAR AIRWAYS: 
As companhias aéreas do Golfo Pérsico quebraram a barreira do som no mercado do futebol e contagiam cada vez mais camisolas dos grandes emblemas europeus. Um dia destes, as meias-finais da Liga dos Campeões vão parecer uma feira de transportadoras de luxo. Depois de a Fly Emirates se ter associado ao Benfica, a Qatar Airways foi apontada ao Sporting. O que faz sentido. A empresa catari vai abrir este ano a primeira rota directa para Lisboa. E ao contrário do que diz a hashtag, o Sporting continua a ser de Lisboa. Assumindo que o interesse fosse real, a saída do clube da Champions poderá ter comprometido o negócio. Ainda sem presença efectiva em território nacional, é sobretudo projecção internacional que esta corporação pretende no imediato. Não estou a ver a Qatar Airways preocupada em deixar pegada em Tondela ou Moreira de Cónegos, sem desprimor. Ontem, alguns burburinhos viraram a agulha da empresa para o FC Porto. É certo que a nossa dimensão internacional é incomparavelmente maior do que o valor que nos dão cá dentro. O FC Porto vende melhor lá fora, sobretudo nos países da América Latina (em particular a Colômbia) e agora no México. Mas, a menos que a estratégia da Qatar Airways seja apenas capitalizar essa amplitude transcontinental do clube e a presença regular na prova milionária, não vejo onde cabe essa uma eventual união entre as duas partes. E, para isso, já existe o Barcelona. Doha/Porto parece-me, por ora, uma ligação ainda longe de acontecer.

BUZZTRADE: 
Este é provavelmente o buzz mais bizzarro deles todos. Perdoem-me a aliteração. A Buzztrade.com apresenta-se como uma plataforma de transacção de produtos financeiros de risco aparentemente normal. Logo na página principal, escarrapacha uma imagem do FC Porto 2015/2016, ao mesmo tempo que se anuncia como parceira oficial do clube. Eu, que até trabalho numa área relacionada com mercados cambiais, nunca vi a Buzztrade mais gorda. Ainda tentei pesquisar sobre ela no google, mas o domínio parece ainda nem estar indexado ao motor de busca. Uma rápida consulta ao About do site permite-nos saber que se trata de uma corretora cipriota, fundada este ano, filial de uma tal de YTFTrade Ltd, outra corretora sediada no Chipre. Aposto que a casa-mãe destas empresas se chama AZVKzxbs%&-xLttY ou algo do género. Confesso, não tive paciência para continuar a escavar mais, senão ainda acabaria na Deep Web. A presença social da Buzztrade é quase nula: facebook com pouco menos de um mês e um twitter onde segue apenas uma conta, a do FC Porto. Tentei falar com a assistência técnica, mas não obtive resposta. Descobri, em alguns fóruns portistas, quem aparentemente tenha conseguido e sabido que a empresa não confirma se será a estampa da camisola do clube este ano, mas que haverá uma conferência de imprensa a anunciar a parceria na próxima semana. Odd. Opaco e pouco esclarecedor. No entanto, não me surpreenderia se isso acontecesse. As corretoras parecem estar a dar os primeiros passos neste mercado e há cada vez mais pessoas a negociar instrumentos financeiros de risco. É um pouco como o fenómeno das apostas. A título de exemplo, o Atlético de Madrid é patrocinado por uma outra corretora, essa bem mais renomada, a Plus500. É provável que exista de facto uma parceria da Buzztrade com o FC Porto na forja, mas tenho dúvidas de que seja este o nosso novo patrocinador principal, quanto mais não seja pela parca dimensão da plataforma.

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É possível que me tenha escapado algum rumor, mas assim de cabeça -- e de pesquisa, porque faço sempre o meu trabalho de casa -- penso que estejam aí compilados os mais consistentes até ao momento.

Em jeito de balanço final, e sem grandes prognósticos sobre tão delicada matéria, assumo que não tenho preferência, nem previsões sólidas sobre qual será o próximo patrocinador do FC Porto. Interessa-me, no geral, o que interessa ao grosso dos adeptos portistas: que seja apenas um negócio vantajoso e benéfico para o clube.

Se me perguntarem qual destes não será o próximo patrocinador do FC Porto, arrisco dizer com algum grau de certeza que a Fosun está descartada. Assim como, pelas razões já mencionadas, o Novo Banco. A linha dos factos joga a favor da Samsung. Mas podemos andar todos a bater ao lado, bem ao lado.

Afinal, o FC Porto nunca foi apenas emblema de títulos. É também um clube de grandes surpresas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um dia

Impostor.

Traste.

Gosma.

Rato.

Pirómano.

Bandalho.

Bárbaro.

Vice-traficante.

Energúmeno.

Imbecil.

Palonça.

Corja.

Javardo.

Eunuco.

Gomes da Silva.

Miserável.

Verme.

Sabujo.

Filho de puta.

...

Um dia, perco a cabeça e insulto-te.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Abraço de pedra

Helton e Casillas: Abraço de pedra

Enquanto deambulava pelas imagens da festa de domingo, tropecei neste momento poderoso. Uma fotografia que me deixou ancorado durante largos minutos.

O quadro, captado por um dedo cirúrgico, não deixa espaço à dúvida: esta época, o FC Porto joga com dois guarda-redes.

Era praticamente impossível prever as consequências que a contratação de uma supernova do futebol mundial como Iker Casillas comportaria sobre um dos maiores pesos-pesados dos dragões nos últimos anos, Helton Arruda.

Perspectivava-se um choque de titãs. Temia-se o paradoxo da omnipotência. Que o telhado fosse curto para dois egos astronómicos. Que o mediatismo de Casillas sentasse o simbolismo de Helton no banco. Que, no meio de tudo isto, a métrica fundamental para a titularidade passasse a ser o decreto em vez da qualidade.

Nem era por má fé.

   
Helton. 321 jogos pelo FC Porto.
Recorde-se o Helton do final da época passada. Uma bomba-relógio em tic-tac acelerado. Um tipo visivelmente saturado, com futuro incerto no clube, armado com uma retórica suspeita contra uns e recados mal encriptados para outros. O guardião brasileiro foi o espelho das atribulações que marcaram a recta final da temporada transacta e nunca se escudou de responsabilizar -- directa ou indirectamente -- o treinador por isso.

Tanto que a sua renovação surpreendeu alguns quadrantes, que já esperavam que a rota de colisão iminente entre o jogador e Lopetegui cumprisse a trajectória. Mas a bomba não explodiu.

Depois, Casillas parecia querer fugir de Madrid como quem ansiava escapar da prisão. Da cidade, do país e do clube, onde já só mantinha uma aura ténue por força dos 25 anos de blanco. O guarda-redes fora finalmente vencido pela enorme pressão da imprensa espanhola, que não é mais do que uma alcateia de hienas sedentas pelo próximo erro de Iker. Os jornais nunca viveram das boas notícias.

Porém, a chegada de Casillas ao FC Porto não foi o gatilho do caos preconizado.

Em parte, porque Helton é enorme. Entre os postes e fora deles. O primeiro capitão estrangeiro da era Pinto da Costa não chegou à braçadeira por promoção automática. Fez por isso. Leva 321 jogos com esta camisola. O que dá qualquer coisa como 29.000 minutos, ou quase 500 horas, a guardar o templo. É muito, muito tempo. Teve os seus momentos negros, verdade. Contudo, também foi o farol deste emblema em incontáveis ocasiões.

Quando o internacional espanhol aterrou no Porto, Helton percebeu que lhe estava a ser endossada uma responsabilidade bem maior e mais exigente do que defender a baliza do FC Porto: defender o FC Porto. Proteger o grupo, o plantel, o balneário.

O brasileiro abraçou esse desafio. Entende-se melhor com o basco e consigo próprio. A pouco e pouco, torna-se no adjunto não-oficial de Lopetegui. O cordão umbilical entre o técnico e a equipa. Interventivo, inteligente, irrepreensível. O que envolve também transmitir confiança e afecto ao novo dono da baliza do FC Porto. Levantá-lo nos piores momentos. Erguê-lo nos melhores.

Iker. 725 jogos pelo Real Madrid.
Casillas também ajudou. De que maneira. O guardião mostrou que humildade e estrelato são duas palavras com o mesmo tamanho. Poderia ter feito como a maioria dos endeusados fazem sempre que descem do seu Olimpo para jogar noutras paragens. Aterrar em cima do piano, de estatuto na mão. Mas não. Olhem para a foto de domingo: é Casillas quem, no fundo, parece uma criança agarrada ao ídolo. Icónico.

Em Espanha, dizem-no frágil. Foda-se: é óbvio que é frágil. Espanha toldou-o assim. Tem uma câmara apontada a si durante 90 minutos de cada jogo. Tem um programa em horário nobre na televisão espanhola a registar cada arroto que dá. Tem colunas em revistas dedicadas a avaliar a sua performance a descascar camarão na marisqueira de Matosinhos. A comunicação social espanhola tem um sismógrafo a medir permanentemente a vida de Casillas. Diria até que possui os direitos de privacidade do jogador. Hediondo.

Se eu vivesse um autêntico Truman Show como este que Iker vive, acho que também questionaria a minha sanidade mental.

Podia ter havido resignação e amuo, em vez de respeito e admiração. Mas Helton e Casillas, dois monumentos vivos, comportaram-se como os ícones que efectivamente são. Monstros que conseguem coabitar no mesmo espaço.

O abraço entre ambos no final do clássico é sintomático. E mais um daqueles momentos em que o silêncio de uma fotografia nos diz tanto.

Um verdadeiro abraço de pedra.

Imortal.