domingo, 30 de agosto de 2015

FC Porto 2 x 0 EST: Bomba de fé contra julgamentos sumários

Julen Lopetegui afirmou na antevisão do jogo desta 3ª jornada que o Estoril tinha dominado os primeiros 75 minutos de jogo na Luz. Não sei se o intuito do técnico do FC Porto seria enfatizar a qualidade dos canarinhos ou mandar uma bicada ao Benfica. Ou ambos. A verdade é que Lopetegui podia ter-se socorrido do mesmo barómetro para avaliar a prestação da sua equipa, no Dragão, frente a este mesmo Estoril. E facilmente constataria que o adversário também mordeu os tornozelos ao Dragão durante mais tempo do que devia. Se utilizarmos a mesma bitola lopeteguiana que foi usada para o rival, talvez até 75 minutos. Só que em vez dos primeiros, os últimos da partida.

Isto porque o FC Porto perdeu-se no mapa pouco depois do primeiro golo. Não fosse o foguete de sinalização de Maicon e entrada de Herrera -- que ontem foi bússola -- o desnorte poderia ter saído caro. Para um corpo que acaba de sair de sete transplantes, é natural que necessite de tempo para absorver os novos orgãos. Julgo que ninguém poderia esperar uma recuperação rápida sem sobressaltos. Mas é importante que o treinador acelere a afinação de processos e invista sobretudo na articulação da máquina, porque o gongo da pré-época já soou há muito.

Eis as notas:

MAIS
Maxi: O uruguaio conquista os adeptos a cada jogo que faz. Imprime a raça que trazia no catálogo e nem parece que andou oito anos a jogar num clube que tem no ódio ao norte e ao FC Porto o principal combustível. É lateral, médio-ala e extremo. Tudo no mesmo jogo. Há os que são e os que dizem que são. Maxi é claramente dos primeiros. O portista emocional que há em mim vomitou a sua vinda e ganhou três úlceras nervosas quando viu que ia herdar a mítica camisola dois. O portista racional que vive cá dentro dizia-me que era um golpe à Pinto da Costa. Grande contratação, jogador de raça e qualidade, com garantia de rendimento imediato e, ao mesmo tempo, um duro desfalque no rival. Até porque o futebol é um jogo de soma zero: para uns saírem a ganhar, outros têm necessariamente de ficar a perder. Ganhou a razão. Corrijo: Maxi conquistou-me a razão. O respeito e admiração também. O novo número dois do FC Porto tem sido o jogador mais regular deste início de época, com exibições sempre em alta rotação e uma entrega inatacável.

Marcano/Maicon: O primeiro porque é certinho como o destino. O segundo porque merece o destaque muito para além do golo que marcou. É que Maicon parece ter regressado este ano com outra precisão na chuteira. Se tivesse de apostar, diria que o brasileiro abdicou das férias em Cancún para tirar um curso intensivo de "Como Meter a Bola Onde Queres" com Rémi Gaillard. Ao cabo de três jogos a sério (+ uns quantos da pré-época), o empirismo já permite uma conclusão firme: Maicon melhorou -- e de que maneira -- o passe longo. As suas charutadas já não são um problema para o sector da restauração do Dolce Vita, mas -- finalmente -- para as defesas adversárias. Continuo a achar que usa e abusa deste recurso, mas pelo menos tem-no feito com qualidade, acertando muito mais do que falha. Depois, claro está: o golo. Mais que não seja, foi a injeção de calmantes de que a equipa precisava e ajudou o FC Porto a acertar o passo. Mais dessas, por favor.

Danilo: Sei que esta escolha não é consensual e talvez o jogo de ontem pedisse mais Rúben e menos Danilo. Mas para quem chegou este ano, com a pesada herança escrita por Casemiro e Fernando, Danilo tem mostrado uma consistência defensiva semelhante a uma tijela de Nestum com seis dias. É muito difícil fazer passar a bola por ele. Não tivesse sido tão prejudicado por um Imbula ainda em adaptação e pela liberdade total com que Brahimi assumiu a função de organizador, talvez tivesse sobressaído mais no encontro de ontem. Contudo, e para mim, Danilo é daqueles que brilha na sombra, sem fazer muito barulho. Precisa de melhorar a saída de bola, um capítulo que se ganhará com rotina, tempo e confiança.

Herrera: Se nos primeiros dois jogos da temporada foi a face da desorientação, ontem foi a bússola que -- juntamente com André André -- deu alguma organização ao caos. Entrou sereno e emprestou o toque de equilíbrio por que a equipa tanto ansiava. Ainda está longe de ser aquele box-to-box pendular que procuramos, mas passou muito por ele a estabilidade da linha média. Ainda semi-marcou um golo após fora-de-jogo que só o fiscal-de-linha viu. Mas era expectável que Duarte & Companhia tentassem intrujar o FC Porto. Aqui, nada de novo.


MENOS
Lopetegui: Antes que me lapidem: o homem fez o que lhe competia em campo. Mexeu bem e os riscos que correu -- tirar Varela a cinco minutos do intervalo por exemplo -- compensaram. Até a escolha de Indi para titular na esquerda foi uma manobra inteligente. O problema está fora das quatro linhas. Estava por explicar se a ausência Cissokho era de ordem física ou técnica. Lope respondeu com um "nim". É certo que Cissokho está longe dos índices físicos desejados, até porque, desde fevereiro deste ano, só tem 180 minutos oficiais nas pernas. Mas, com certeza, não terá sido somente após o jogo com o Marítimo que o treinador descobriu isso. Se não servia para o banco no Dragão, também não servia para o relvado na Madeira. Cissokho errou na ilha. True that. Mas Herrera e Tello também têm errado. Precisamente porque, tal como o francês, também estão fora de forma. Não se pode ter dois pesos e duas medidas no balneário. E se Lopetegui insistir em fazer deste tipo de castigo-exemplo o seu modus operandi, não lhe sobrarão aliados no final do ano.

Varela/Tello: O portugês entrou mal, falhou praticamente todos os passes e pareceu sempre demasiado lento quer no raciocínio quer na execução. Jogou 39 minutos, não fez nada digno de registo e foi bem sacrificado. O espanhol prolonga a saga dos duelos perdidos e continua sem conseguir ganhar no 1x1 a um eucalipto. Dá ideia que só tem uma finta no cardápio técnico, assemelhando-se a uma locomotiva cega e desgovernada que espera pelo melhor quando encara uma parede de frente. Este dragão, sem Brahimi, não tem asas. A solução pode passar por Corona, mas convém recordar que o mexicano ainda é um protótipo de jogador. E de promessas está o futebol cheio.

Tribunal: Ter um público apelidado de "Tribunal" não pode ser apenas prosápia, tem de ser acima de tudo responsabilidade. Lamento mas assumo o que vou dizer a seguir: a maioria dos juízes deste tribunal parecem os mesmos dos sumaríssimos do Estado Novo. Se a equipa falha um passe, assobia-se; Se o Brahimi individualiza, assobia-se; se o Imbula perde a bola, assobia-se; se o Marcano veste o colete ao contrário, assobia-se; se o Indi dá um peido, assobia-se. Execrável. Como o Miguel Lima tão bem cunhou, esta "massa assobiativa" tem em resultados como o da Madeira aquilo que semeia. Curto exemplo: se o meu patrão me der uma reprimenda em privado, depois de um erro cometido no emprego, eu absorvo, aceito e tento melhorar. Se o meu patrão me partir a cabeça a cada cinco minutos por tudo e por nada, à frente dos colegas, a minha única vontade é de lhe enfiar um soco no meio dos cornos. Julguem-se a vocês próprios, juízes, e escolham em que pé querem estar.


Momento: Minuto 67'. Maicon diz qualquer coisa a Brahimi. Dá uns seis passos atrás e investe no bicho. Fica a ideia de que Kieszek podia ter feito melhor, mas a bola levava fogo e efeito. A bomba do brasileiro arrefeceu um Estoril atrevido, que criou muitas dores de cabeça ao FC Porto. Mais do que isso, Maicon já reclamava para si esta oportunidade. Tal como nos passes longos, há ali treino visível. No FC Porto, valoriza-se quem corre por fora.


Pormenor: Brahimi a 10 é refresco. Não há no plantel atual ninguém com a capacidade do argelino para desenhar perigo a partir do centro. Mas Brahimi ainda tem n aspectos tácticos por aprimorar na posição e vai precisar de muito tempo -- e jogos -- para se formatar. Isto se Lopetegui mantiver a aposta. Com tudo isto, levanta-se inevitavelmente uma questão. Onde cabe e para que serve Bueno?

Jogo sem sal, mas que vale pela vitória, pelos três pontos e pela chegada ao 1º lugar da Liga, a par de Arouca e talvez Sporting, antes da primeira paragem das competições para selecções a até ao fecho dos mercados europeus.

Aproveitar para reflectir.

A equipa e o tribunal.

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Nota final: Fiquei sem computador, daí o atraso na publicação dos últimos textos. Tentarei resolver a situação com a maior br€vidad€ possível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A volta à Europa em 83 dias

Nem mel, nem fel.

O fado que nos cantou o sorteio da Champions não é a canção alegre, mas podia ter sido bem mais triste.

Pesam mais as adversidades do que os adversários. Já lá vamos.

Chelsea, Dynamo Kyiv, Maccabi Tel-Aviv.

Será tempo de rever Mourinho, revisitar Kiev e dar um saltinho a Tel-Aviv, onde iremos jogar, mais coisa menos coisa, a 70 quilómetros de Gaza, caso seja preciso alguma inspiração para encarar cada jogo como uma batalha. (Shouldn’t have said that.)

Tendo em conta que estávamos confinados a receber Barcelona, Bayern, Chelsea ou Zenit, os ingleses estão longe de ter sido um péssimo desfecho. Entre defrontar os atuais campeões europeus, a Luftwaffe que nos bombardeou o ano passado, uma equipa que tem Hulk e outra que tem Mourinho, prefiro a última.

Em teoria, o Zenit seria a minha primeira escolha. Foi, até os bombos pararem. Mas ao saber que tínhamos quase um terço de planeta para percorrer entre Ucrânia e Israel, somar-lhe mais uma jornada aérea de mais 8.000 quilómetros não seria profícuo para a equipa e arriscaria consequências no campeonato.

Depois, sejamos francos. Na companhia de monstros como Barcelona e Bayern, o FC Porto estaria, muito provavelmente, condenado a uma luta a três pela única vaga disponível: o segundo lugar.

Já Ucrânia é um clássico. Nos últimos cinco anos anos, quatro viagens. Desta vez não vamos a Donetsk, mas Donetsk estará certamente connosco. (I really should be punished for this.)

Ir a Kiev já em Setembro seria fantástico, não tivéssemos um clássico com o Benfica quatro dias depois. Vamos evitar o rigoroso tempo do leste europeu. Mas teremos de ser igualmente rigorosos na gestão que faremos deste jogo.

Para completar o ramalhete, Tel-Aviv. Sobre o Maccabi, pouco sei. A não ser que Paulo Sousa andou por lá e que já venceram duas Ligas dos Campeões. Da Ásia.

É sempre conveniente apanhar o elo teoricamente mais fraco na cambalhota da fase de grupos -- garante dois jogos consecutivos com elevada probabilidade de vencer. A dúvida é saber se esta equipa será efectivamente o elo mais fraco deste grupo.

Somando tudo isto e parafraseando Lopetegui, será uma fase de grupos complicada. Não apenas pela qualidade dos emblemas, como pela quantidade de milhas que a equipa vai fazer e pelo calendário desfavorável e incompatível com alguns dos momentos chave da época.

Considere-se igualmente que o onze do FC Porto está em obras e ainda está longe dos acabamentos e antevêem-se seis encontros complexos pela frente. Difícil, será sempre. O que não diminui a responsabilidade de passar à fase seguinte. Pese embora esta panóplia de pormaiores que sopram contra corrente, o FC Porto possui para lá de argumentos para estar entre os 16 melhores da Europa.

A aventura começa já a 16 de Setembro e prossegue, pelo menos, até 9 de Dezembro. Serão 83 dias de jornada europeia distribuídas por cerca de 17.000 quilómetros em viagens e uma bagagem carregada de expectativas elevadas e confiança no apuramento para a próxima fase.

Têm a palavra Lope e a rapaziada.


Calendário europeu do FC Porto | 2015/2016 @ zerozero.pt

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

32 bolas e o diabo a quatro

Dia de sorteio da Champions é sempre equiparável a dia de jogo.

Segue-nos uma expectativa incontrolável de saber em que lago de tubarões vamos nadar esta época.

De há uns anos para cá, as disparidades dos potes têm vindo a diluir-se acentuadamente, tornando-os cada vez mais iguais. Claro, continuam a existir alguns mais iguais do que outros. No entanto, a tendência de homogeneização progressiva é evidente.

Olhando para a atual distribuição do certame, vemos um pote 1 que não chocaria se fosse 2, um pote 2 com tanto músculo como o primeiro, um pote 3 muito bem maquilhado de pote 2 e um pote 4 que deixou de ser o bidon dos brindes.

Ao contrário da propensão que se tem verificado nos principais campeonatos nacionais da Europa, onde os grandes logram cada vez mais (e melhores) condições para se tornarem maiores e o fosso para os clubes de linha média/baixa alarga gradualmente -- salvé o excecional modelo de repartição de direitos televisivos da Liga Inglesa --, é de notar que suceda precisamente o contrário na Liga dos Campeões [e em certa medida na Liga Europa].

Não quer isto dizer que estejamos a assistir a um equilíbrio da competição em si. Até porque o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha quem a UEFA quer. Mas os colossais hiatos qualitativos entre as várias camadas do sorteio encurtaram e é provável que no futuro possamos ver um Liverpool (ou um Milan em menor probabilidade) regressar à liga milionária pela porta mais pequena. Como aconteceu com o Mónaco em 2014.

Precisamente porque o sistema de avaliação de pontos da UEFA, cujo ranking de coeficiente tem por base os resultados registados nas cinco presenças europeias anteriores mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período, penaliza annus horribilis e inflaciona desempenhos acima das perspetivas.

Por outras palavras, mais vale ter um cadastro regular de cinco anos pautado por prestações ligeiramente acima da média com um ou outro leve deslize do que duas extraordinárias épocas europeias, intercaladas com três miseráveis.

Além disso, a UEFA reestruturou o regulamento este ano, tornando o primeiro pote acessível apenas ao detentor do troféu e aos campeões dos principais campeonatos nacionais da Europa: o que explica a presença de Zenit ou PSV nesse grupo.

E se quisermos somar mais ingredientes, refira-se o facto de alguns takeovers de equipas russas, francesas, inglesas, etc. terem dado retorno a nível internacional, o que baralhou ainda mais os coeficientes da UEFA.

Nem é preciso recuar muito no tempo para constatar a evolução desta tendência. Voltemos apenas cinco anos atrás. Observe-se os potes do sorteio de 2010/2011:



Nesse ano, o dragão afinava a garganta para incinerar a outra metade da Europa do futebol. Na Liga dos Campeões, assistia-se a uma das últimas distribuições relativamente proporcionais do sorteio. Exceptuando a presença do Real Madrid na segunda tômbola, o corpo estranho desta lista, todos os potes tinham graus de qualidade verdadeiramente distintos entre entre si.

O Tottenham fazia a sua estreia na Liga dos Campeões, o Lyon vivia ainda os benefícios das últimas boas prestações europeias do final da década passada e nenhuma equipa desse pote 4 chegou aos oitavos, sendo que apenas duas conseguiram apurar-se para a Liga Europa.

Regressemos ao presente:



O alinhamento do sorteio desta quinta-feira deixa-nos sem grandes vontades de fazer conjecturas. Arrisco dizer que não sei se não terá sido preferível ficarmos no pote 2 e evitarmos (maybe..) as malditas viagens a Inglaterra, mesmo correndo o risco de regressarmos ao Allianz Arena.

Por outro lado, não há nenhuma equipa no pote 3 que não seja capaz de nos dar sérias dores de cabeça em qualquer um dos jogos. E no pote 4 existe uma que até sabe o que é vencer o FC Porto este ano.

Bottom line is: não há sorteios perfeitos. E os bons estão a acabar. Daí, a quantidade crescente de grupos da morte e o declínio de jackpots.

Podia dizer-vos que adorava ir à Holanda ou que preferia não ter de fazer 14.000 quilómetros para ir e vir do Cazaquistão, mas estaria a mentir: não tenho qualquer preferência. Desejo somente uma combinação favorável que nos permita alimentar o sonho (e os cofres).

Venha o diabo e escolha.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O café do sr. Alfredo

Todos os dias, desde que o despertador ou a minha fé inabalável no botão do snoozer não me traiam, tenho por hábito beber o primeiro café da manhã num tasco a duas curvas do edifício onde trabalho. Uma pequena petisqueira que, se alguma vez teve nome, o tempo usurpou-o impiedosamente.

Os locais simplificam. Chamam-no 'café do sr. Alfredo', naquele outro velho costume bem português de baralhar o nome da casa com o do respectivo patrão. O dono, o tal sr. Alfredo, é o típico autocrata taberneiro luso: calvo, bigodaça farfalhuda e aparada por um sapateiro, pança mais redonda do que a máquina de carambolas e pés literalmente bipolares. Mas o sr. Alfredo é também um one-man show do balcão: alia uma extrema capacidade de multitasking, onde assimila seis pedidos, tira duas bicas curtas e uma cheia, besunta meia torrada com manteiga e acomoda o tabuleiro dos salgados ao mesmo tempo, a uma forte aptidão para falar para dentro, somando-lhe uma velocidade vertiginosa no cálculo do troco, enquanto atira as moedas para dentro da registadora como se estivesse a jogar à petanca.

No fundo, o sr. Alfredo é um verdadeiro unicórnio da tuguice. E como qualquer unicórnio alfacinha, é do Benfica.

Convenhamos que o sr. Alfredo sabe que não partilho da sua afinidade pelo encarnado. Não é que alguma vez lho tenha dito no meio das mil conversas sobre a disciplina posicional do líbero das equipas de Helenio Herrera que nunca tivemos. Na verdade, nunca trocámos uma única palavra sobre futebol. Nada. Nesta relação estritamente comercial que se estende diariamente há quase dois anos, se alguma vez nos desviámos do códice cliente/vendedor foi para comentar a borrasca que vai na rua. Mas o sr. Alfredo conhece o meu portismo profundo porque a leitura rápida do jornal denuncia-me. Detenho-me sempre nas páginas da morada azul por muito mais tempo do que os demais fregueses. Home is where your heart is.

Por isso, criou-se inadvertidamente uma espécie de pacto de silêncio entre mim e o sr. Alfredo. O café não é mau, o pastel de nata ainda vem fumegante da panificadora, deixo lá o meu níquel todos os dias, nenhum de nós fala de bola e saímos os dois a ganhar com o delicado equilíbrio deste sistema.

A manhã desta segunda-feira que passou não foi diferente. Por volta das 6:10, lá estava eu a entrar no único café da zona disponível àquela hora desumana e ultra neoliberal para pegar ao emprego. Ainda em modo de piloto automático, dei os bons dias e pedi o costume. O sr. Alfredo devolveu cerca de 40% da saudação -- os restantes 60% ficam habitualmente presos no bigode -- e começou a preparar o repasto.

Como qualquer unicórnio que se preze, o sr. Alfredo tem sempre Abola à disposição dos clientes. Olhei para o lado e reparei no folhetim da Queimada dobradinho em cima da mesa. Mirada rápida, leve sorriso interior: A ÁGUIA ESTÁ CONFUSA, lê-se.

Abri o panfleto e todo ele era holocausto. As primeiras páginas esbanjadas em imagens concentradas de choradeira, angústia e revolta com uma equipa enfadonha, a arbitragem prosaica e a tentativa do Jiménez de se armar em Daniel-san no momento da verdade (pun intended).

Terminei o meu café, dobrei o jornal e devolvi-o ao descanso. Quando procurava moedas para liquidar a dívida, elevou-se-me um súbito assomo de estupidez e quase quebrei o embargo. Estive perto de dizer qualquer coisa como 'Então o Arouca é líder isolado, ham?, mas tive o bom senso de me impedir.

Afinal, também não ganhámos. E, para mim, as derrotas e os empates têm o mesmo valor emocional. Ou seja, zero. Fui habituado a um FC Porto com cultura de vitória, com uma extraordinária sede de conquista tão bem descrita aqui, pelo que rapidamente esqueço que temos um ponto a mais do que o actual detentor do título, ou que o rival falhou uma oportunidade clamorosa para fugir ao pelotão.

Olho para o sr. Alfredo e vejo-o de volta dos rissóis de semblante carregado. Há uma tensão neutra no ar. Cheira a borras de café e a empate. A lição que esta segunda jornada nos deu foi de que ainda é muito cedo para todos. Mas quanto mais rápido o FC Porto recuperar essa sede, mais perto ficará de a saciar.

Agradeci, despedi-me e saí do café em silêncio. O sr. Alfredo voltou para o mundo dele e eu para o meu, a pensar como será o meu primeiro café da manhã na próxima segunda-feira.

Foto escolhida aleatoriamente de um tasco qualquer em nenhures.
Não é o café do sr. Alfredo. Mas podia ser.

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Notas soltas: Graças ao caro Miguel Lima, Tomo III, já simplifiquei a template para smartphones pelo que já podeis consultar o blog sem gastar o tráfego móvel todo num só post. Ao Miguel, autêntico padrinho do 'Do Calcanhar à Trivela', já nem há palavras para agradecer todo o incentivo e apoio que tem dado nesta jornada. Extraordinário.

Notas soltas II: Acabo de escrever este post e vejo o sorteio de árbitros para a próxima ronda. Ri-me.

domingo, 23 de agosto de 2015

CSM 1 x 1 FC Porto: A barreira dos Barreiros

É oficial. Precisamos de um exorcista ou de um Vasco da Gama qualquer para abater de vez este fantasma que aterroriza o FC Porto nos Barreiros e dobrar finalmente este cabrão deste Adamastor do Atlântico que nos rogaram desde que o Kléber veio para cá.

Mas não só.

Ir à Madeira é sempre um pincel do tamanho da Torre das Antas. Épocas houve em que traçava mais unhas no pre-match de um Marítimo x FC Porto do que nos 90 minutos de uma deslocação a Alvalade. Tendo em conta as intempéries que nos fustigaram na ilha na temporada passada, a que se somava o facto de não vencermos no reduto do Marítimo há mais de três anos, esta partida possuía um cariz reforçado. Era fundamental abortar o borrego e impedir que os Barreiros se transformassem na nova Reboleira do FC Porto, mas ainda mais essencial excomungar o cisma que se criou na equipa azul-e-branca de jogar neste estádio com a displicência de um cirurgião plástico que emborca quatro amarelinhas antes de ir operar uma penca.

Infelizmente, voltámos a repetir tudo. Não só ajudamos a parir o ovino como mantivemos uma letargia atípica num campeão. Falhámos [mais uma vez] um dos principais checkpoints deste campeonato, diria talvez o mais importante a seguir aos quatro clássicos. Pior do que isso: não consigo perceber se perdemos dois pontos ou ganhámos um. A única certeza que tenho é de que perpetuámos o monstro.



MAIS
Brahimi: No deserto de ideias ofensivas que é este FC Porto, o extremo argelino tem dias em que é uma banheira de gin com gelo até às bordas. É dos poucos jogadores da equipa que sabe sair com bola no pé e desequilibrar a defesa contrária em drible. Falta saber definir melhor o tempo de passe. Quando acertar essa agulha, será um top ten da Europa na sua posição. Hoje, foi um dos que tentou tirar a equipa no areal. E nunca se esquivou de fazer marcha-atrás. Imagem que fica na retina: um lance na primeira parte onde, logo após fazer uma falta no lado direito do ataque, corre desalmadamente para o flanco esquerdo para ajudar Cissokho na defesa.

Marcano: A lucidez e tranquilidade que Marcano tem mostrado no centro da defesa portista é assinalável. Marcar um armário como Marega não é propriamente fácil, mas o espanhol cumpriu bem esse papel, concedendo pouco espaço ao maliano e estando sempre disponível para dobrar os adiantamentos de Maicon ou as investidas de Cissokho no ataque. Esteve mais assertivo do que o colega do lado e mostrou que, até ver, é o único central do FC Porto com as garras cravadas no onze.

Aboubakar: Correu, baixou, tabelou, lutou, esperneou, iniciou a jogada do primeiro golo com um passe fantástico para Brahimi, ganhou um livre "daqueles", etc, etc. Jogou bem o rapaz. Sim, também arranquei cabelos naquele lance em que o camaronês tinha tudo para bater Salin e... acertou no Salin. Mas de qualquer modo, foi dos poucos elementos lúcidos desta equipa, tentando sempre marcar presença na área e sendo um ponto de referência no último terço. Voltou a fazer uma bela assistência que Varela desperdiçou. Não admira que tenha saído muito desgastado perto do final. Afinal, jogou novamente em mais do que uma posição...


MENOS
Herrera: Completamente fora do barco. O mexicano está com um rácio embaraçoso no capítulo do passe curto, não acertou um passe longo, teve uma daquelas receções à Fatih Sonkaya e ainda ofereceu um presente envenenado a Casillas. Tudo somado faz o golo que marcou parecer uma positiva a Educação Física numa pauta corrida a negas. Até compreendi a sua titularidade no dragão na jornada inaugural. Mas não percebo porque Lopetegui decide malhar em ferro frio, quando o que Herrera mais deve desejar neste momento é afastar-se da pressão esmagadora que está a evidenciar e ir passar uma temporada ao conforto do banco.

Lopetegui: Herrera no onze foi um tiro no pé. O técnico portista assumiu o risco e voltou a colocar o jogador que dá mais verticalidade ao jogo do FC Porto. No entanto, o problema dos dragões não é a falta de verticalidade. E a menos que Herrera jogue como Pogba nos treinos, a opção de insistir no mexicano havendo boas alternativas no banco começa a ser questionável. No capítulo colectivo, a segunda parte da equipa foi uma recordação dos piores momentos da temporada passada. Noutros tempos, "as outras equipas vão levar massacres que nem respiram". Agora, tenho de confessar uma certa apreensão com a falta de ímpeto de um grupo que pretende, supostamente, vencer todos os jogos. Mesmo ao intervalo, o FC Porto apresentava um total de meros 3 remates em 17 ataques, o que para uma equipa que se viu a perder desde o minuto 5' é sintomático. E quando Casillas é responsável por dois dos lançamentos de ruptura mais perigosos dos dragões... através de pontapés de baliza, também é sintómatico. Por último, o FC Porto continua sem virar resultados com Lopetegui, uma demonstração da incapacidade anímica da equipa em lidar com a adversidade. Trabalho de (e para) treinador rever.

Cissokho: Erro gritante no golo do Marítimo. Foi este tipo de displicência que lhe valeu uma dedicatória dos adeptos do Liverpool. Apesar da falha e de ter mostrado que ainda é, por vezes, um corpo estranho nesta equipa de Lopetegui, teve alguns momentos positivos, que intercalou com outras tantas falhas de concentração. Não foi por ele que deixámos dois pontos nos Barreiros, mas tivesse sido mais lesto naquele minuto fatídico e talvez a história da partida fosse outra. Edgar Costa deu-lhe trabalho. Demasiado até. Vai apanhar melhor e mais rápido na Liga. Não tenho dúvidas de que é três vezes superior a Ángel em todos os aspectos, mas continuo receoso de que seja inferior àquilo que o FC Porto exige.


Momento: Minuto 94'. Cabeçada de Maxi à trave e ao poste e sabe Deus mais o quê. Uma bola que o Diabo amorteceu em cima da linha e ofereceu vilmente ao adversário. Se não há intervenção sobrenatural nas deslocações do FC Porto à ilha, não sei como explicar certos fenómenos. Como o de Salin transcender-se quando vê azul à frente. Ou o de Edgar Costa ter os nervos do lábio localizados no antebraço.


Pormenor: Um dos motivos pelos quais não me pronunciei sobre as bolas paradas na semana passada foi por considerar um só jogo demasiado prematuro para extrapolações sólidas. O encontro desta noite confirmou as minhas suspeitas. As set-pieces continuam a ser um problema... para nós. Dos 11 ou 12 cantos a nosso favor, cerca de 70% não passaram do primeiro poste, em centros que não subiram acima da cintura dos jogadores do Marítimo. A inépcia neste tipo de movimentos chega a ser hedionda e hoje rendeu mais uns quantos contra-ataques ao adversário. 

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Primeiro revés da época. Se não é mentira que o FC Porto está em reconstrução após uma razia completa ao onze base, não é menos verdade que o Marítimo iniciou este jogo com apenas cinco titulares da época passada. Ou seja, mais um do que o FC Porto. E o melhor jogador do Marítimo 2014/15 até jogou pelo FC Porto 2015/16. O que é válido para uns, vale também para outros. 

Começa a desenhar-se uma outra tendência desconfortante no FC Porto: solidarizar-se com os tropeções dos rivais. Foi assim o ano passado, começou a ser assim este ano. Dia feliz para a Vicra e para Cofina. Amanhã, vão bater-se recordes de vendas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Arte da guerra

Sun Tzu tinha arte nas palavras.

Dizia que o verdadeiro objectivo da guerra é a paz.

Percebia da coisa, o mítico general chinês, caso contrário não teria morrido cinquentão numa época em que a esperança média de vida devia rondar para aí os 30 anos.

Por cá, há quem julgue precisamente o contrário, isto é, cultive a paz como semente do conflito por considerar que só atropelando tudo e todos consegue reinar.

Benfica e Sporting tentaram ir por aí. Trocaram alianças à pressa, com o objectivo de afastar o FC Porto da esfera de influência do futebol nacional.

Mas Benfica e Sporting também sabiam que, deixando de haver um interesse comum, esse matrimónio combinado teria de romper. E que o divórcio não ia ser bonito.

No fundo, o pacto que os dois clubes de Lisboa promoveram há uns meses não foi mais do que o preâmbulo de uma colisão anunciada.

Seria o mesmo que tentar sentar Soares e Cavaco na mesma mesa, forçando uma diplomacia que não duraria até ao aperitivo.

Tanto que bastou um convívio na quinta de uma das comadres para as duas voltarem definitivamente as costas. A paz que era podre decompôs-se e seguiu-se o espectáculo público de que se sabe, com carradas de máquinas de roupa mais encardida que a ficha de jogo da última conquista europeia do Benfica.

Por estes dias, trocam-se tiros pela net. Homem a homem.

“Smithers, release the hounds!”
A frente de combate mais interessante continua a ser entre o Facebook de Bruno de Carvalho e o twitter de João Gabriel, ou Goebbels de Carnide, ou Mr. Burns, se preferirem.

O bicampeão Cosme Damião anda menos concorrido que o Museu do Azulejo. Descobriu-se um buraco maior do que uma trincheira prussiana no número de associados do clube e não há ninguém com coragem para atender chamadas de Munique.

Pior são as garantias bancárias, que estão como os próprios bancos, a esfumar-se. E dava muito jeito desencantar 7,5 milhões de euros sem fazer grande coisa, como aconteceu no FC Porto com Casemiro. É rezar e pode ser que Jesus ajude.

Do outro lado da barricada, nunca o actual treinador do Sporting viveu debaixo de tanto fogo. Sem a benção dos pasquins imperialistas, JJ passou a ser um Exterminador Placável, mais vulnerável dentro e fora de campo. Alguém acredita que foi a primeira vez que o "mestre da táctica" tentou desestabilizar adversários via SMS? A diferença é que agora não há cortinas de ferro.

"Não gostei. Vai sair comunicado."
Já Bruno de Carvalho está menos burro de caralho.
Quando não está a passear no Facebook ou a inebriar-se com as suas performances diárias na Sporting TV, vai lendo as últimas do FC Porto no Dragões Diário. Pelo menos, aprende alguma coisinha. Com os de sempre, claro.

Enquanto os rivais da Segunda Circular se vilipendiam, o FC Porto vai assistindo silenciosamente à novela no sofá.

Ainda bem.

Em nada teremos a ganhar em acicatar este incêndio. Regá-lo com gasolina só irá aumentar a probabilidade de nos queimarmos por tabela. Nem será necessário intervir num fogo que está acabará por se consumir a si próprio.

Por isso, a maior arma do FC Porto no meio de tudo isto é o silêncio. Só assim teremos oportunidade de recolher os despojos desta guerra aberta e de garantir que a cúpula central não volta a mirar o Dragão tão cedo.

Distantes, mas atentos. Foi com esta postura que rompemos poderes estabelecidos e nos fixámos no lugar mais alto do futebol português. É indispensável continuar a observar os desenvolvimentos desta quezília, mas não é menos importante prosseguir à margem da mesma.

Afinal, a arte suprema da guerra "é derrotar o inimigo sem lutar".

Sun Tzu era um homem inteligente.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O bispo deste xadrez

Antigamente, nos torneios de xadrez da escola em que me inscrevia como desculpa para não por os pés nas aulas, tinha o hábito de sacrificar os bispos logo nas primeiras jogadas.

Era recorrente enviar os pobres pontífices para o meio da salganhada de peças do adversário, como carne para canhão das minhas manobras tácticas, cujo papel central era atribuído à rainha, aos cavalos ou às torres.

Até os peões tinham mais voto na matéria do que o clero, na minha estratégia. 

Escusado será dizer que perdia sempre.

Naquela altura, faltava-me visão e inteligência para compreender a importância do bispo no tabuleiro. E esse desrespeito saia caro: fazia-me voltar mais cedo para as aulas.

No futebol contemporâneo, os laterais são uma espécie de bispos da equipa. Foram perdendo gradualmente a função de tampões defensivos para se tornarem na bengala dos extremos, adquirindo uma profundidade astronómica e assumindo um papel muito mais interventivo nos vários momentos do jogo.

Acabaram as equipas europeias de topo com sentinelas nos flancos. O lateral moderno passou definitivamente a fazer parte do desenho ofensivo e transformou-se num fundista com pulmão de nadador olímpico.

Cabrini. Velha escola.
Caiu a moda os Cabrinis, Vogts ou Paulos Ferreiras. Os treinadores parecem agora muito mais seduzidos por Marcelos, Albas e Alabas. Já não se procuram cães de guarda nos corredores, mas galgos de propensão atacante e, se possível, com golo.

A mudança de paradigma foi tão rápida e acentuada que fomos do 8 ao 80. Já há quem ataque melhor do que defenda na posição e mesmo assim mantenha cartel na nata fina do futebol europeu. É a era dos segundos extremos.

Isto a propósito de Alex Sandro e do seu peso no FC Porto.

O brasileiro é caso raro no futebol moderno. Esquerdino, porte físico e velocidade acima da média, técnica e tranquilidade impressionantes. Mas acima de tudo, defende e ataca bem.

Foi precisamente este equilíbrio que fez dele uma peça fundamental no FC Porto durante os quatros anos que jogou de dragão ao peito.

Não é, portanto, de estranhar o seu voo para outros patamares. Até porque Alex Sandro já estava pouco acorrentado ao clube. Comprometido e empenhado, sim, mas pouco interessado em prolongar o vínculo para lá deste ano.

Por isso, também não me surpreende este desfecho a 12 dias do fim da janela de transferências. Não tenho dúvidas de que Pinto da Costa terá tentado manter o atleta. Mas talvez tenha iniciado essa empreitada feito tarde de mais, para quem assinou um contrato de cinco anos, quando chegou.

Vai deixar saudades.
Desportivamente, a iminente saída de Alex Sandro é péssima para o FC Porto a curto prazo, precisamente porque não parece haver no plantel ninguém que reponha esse equilíbrio na dose que o FC Porto precisa.

Aly Cissokho teve seis meses deslumbrantes no FC Porto, mas nunca conseguiu dar continuidade a essa ascensão meteórica, seguindo-se uma série de trambolhões mais ou menos controlados até regressar à casa de partida. Goza de um balão de simpatia e carinho por parte dos adeptos por demonstrar sentir mais o FC Porto em meio ano de casa do que Alex Sandro em quatro. Mas o tribunal do Dragão não é conhecido pela sua tolerância e um erro crucial pode furar de imediato esse balão.

Além disso, terá pela frente o desafio de se reerguer da imagem de trapalhão que cultivou lá fora, o que pode ser um motivo de pressão acrescida. Vem mais maduro, mais experiente, mas também com outro grau de exigência que não a de um lateral de 300.000 euros comprado ao Vitória de Setúbal. 

Depois, há José Ángel. Há e não há. O espanhol que nunca passou de vulgar no FC Porto. Promessa não cumprida, Ángel sentenciou o seu espaço na equipa com aquela escorregadela na Alemanha. Mais por mais, nem encaixa no pendor ofensivo que Lopetegui pretenderá dos laterais, uma vez que não dinamiza o seu flanco, optando demasiadas vezes pelo passe para trás, nem é extraordinário a nível defensivo.

A equipa-base do FC Porto 2015/2016 foi montada a pensar em Alex Sandro e nas características que o brasileiro empresta à equipa. Seria um risco tentar disfarçar esta fenda com estuque.

Numa altura em que se fala do reforço de outras posições, com o centro da defesa ou a zona de criação, creio que se abre assim um novo dossier para a SAD resolver com a máxima urgência: a procura de um substituto para Alex Sandro.

Porque os bispos são os novos pesos pesados do futebol. As únicas peças do tabuleiro que podem fazer piscinas sem restrições, desequilibrar no ataque e equilibrar na defesa. E quando lhes é atribuída a devida importância, mais do que jogos, decidem campeonatos.

Alex Sandro era um bispo no xadrez portista. Dos bons.

Resta-nos encontrar o próximo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Estórias de embalar: O artista cego

Era uma vez um artista.

Um artista cego que ganhava a vida a ver o que os outros não viam.

O artista dizia ter um dom e o seu número era tão bom que deixava o povo de olhos em bico.

Um dia, o artista foi contratado por uma companhia de circo. “O olho que tudo vê”, assim se apresentava o espectáculo.

O sucesso do artista cego logo começou a crescer a olhos vistos. Apadrinhado pela real companhia, o artista foi brilhando nos pequenos palcos até chegar aos grandes anfiteatros do país.

Era um fenómeno, o artista cego. Por onde passava, as suas performances deixavam legiões de fãs perplexos.

Mas o artista cego também coleccionou cépticos. Gente que desacreditava os seus predicados e desconfiava da sua visão milagrosa, tomando o artista por fraude.

Para a trupe circense, os cépticos não eram mais que meros imbecis que invejavam a arte do artista. Por isso, a companhia decidiu montar um espectáculo de renome para provar a extraordinária capacidade do artista cego. E logo na abertura do grande evento, a companhia deu-lhe o palco principal.

O artista cego aceitou o desafio, encheu-se de brio e ofereceu um festival do outro mundo. Conta quem lá esteve que o artista deu uma demonstração quimérica e inigualável do seu enorme talento, levando todos na audiência ao gáudio.

Todos, excepto um.

Um turista, que, de visita àquelas paragens, parecia não estar a ver o mesmo que os outros. Tanto que no final da actuação, intrigado por ver tanto êxtase para um número tão pobre, o turista perguntou ao artista como é tinha tanto sucesso.

O artista cego sorriu. Pediu ao turista para olhar à sua volta e confessou:

O cego aqui não sou eu, amigo.

São eles.



domingo, 16 de agosto de 2015

FC Porto 3 x 0 VSC: O regresso da chama ao Dragão

Nota prévia: Não irei escrever crónicas dos nossos jogos ou tentar resumi-los, já existe quem o faça muitíssimo bem na bluegosfera. Daqui, esperem uma análise mais individualizada e centrada em pormenores e momentos que considerar relevante destacar nas partidas do FC Porto. De qualquer forma, estarei sempre aberto a sugestões e a rubrica sujeita a reformulações. Que é como quem diz, vamos pensando jogo a jogo.

Agora o que interessa: Bravo! Óptima estreia contra um combalido mas sempre complicado Vitória SC. Jogo de grande nível, sobretudo na primeira parte, com a equipa a mostrar a mesma capacidade de posse do ano passado mas num registo bem mais rápido e dinâmico, especialmente nos corredores. O meio-campo do FC Porto parece ter entrado na mesma máquina onde entrou o Capt. Steve Rogers e regressou esta temporada com mais 200 cavalos e um músculo impressionante. Perspectiva-se também alguns casamentos felizes nas alas, sobretudo entre Varela e Maxi. Posto isto, vamos a notas.


MAIS
Aboubakar: Sou suspeito, adoro este chavalo. Gosto de jogadores que assumam o protagonismo dentro do relvado e que saibam a importância de o dividir fora dele. Aboubakar, para lá do excelente jogador que é, tem demonstrado ser um profissional de topo e uma pessoa extremamente simples, que não consegue festejar um golo sem agradecer de imediato a quem lho ofereceu. Passou um ano na sombra de Jackson Martinez e nunca miou: pelo contrário, aproveitou para aprender com o colombiano e este ano foi à luta. O que vimos hoje bem podia ter sido uma noite do Cha Cha Cha: Apoio incansável à linha média, disfarçando-se de quarto médio quando a equipa precisava de construir; facilidade em jogar de costas para a baliza adversária e um sentido de pressão assinalável. Marcou dois golos e ainda ofereceu outros tantos. Luís Freitas Lobo teve sobre ele uma intervenção curiosa a meio da primeira parte: 'Longe da bola, perto do jogo'. Não podia estar mais de acordo.

Maxi Pereira: A exibição do uruguaio foi digna de um episódio de Mythbusters. Em primeiro lugar, Maxi desmistificou que veio para o FC Porto "gozar uma reforma dourada". O salário até pode ser principesco, mas o uruguaio mostrou que não veio passar férias e tem respondido com uma entrega e qualidade exibicional bastante agradáveis. Depois, Maxi Pereira provou que está longe de estar "velho". Aos 31 anos, mantém um pulmão invejável, com capacidade para fazer um sprint aos 88 minutos, tendo sido hoje o terceiro jogador do FC Porto com mais kms percorridos. Já no clube anterior Maxi era tal qual Vinho do Porto. Oh, the irony. Mas Maxi não é só um caçador de mitos. Com uma raça que contagia, duas assistências para golo e uma química com Varela que promete, o uruguaio vai confirmou o que já se suspeitava: é realmente um jogador à Porto.


MENOS
Herrera: O mexicano tem um problema. Executa passes como eu escrevo no computador. Ou seja, da mesma forma que eu ainda sou daqueles que precisa de olhar para o teclado para escrever, Herrera também precisa de olhar para a bola -- quando devia olhar para o jogo -- para passar, o que faz com que, na maioria das vezes, no momento em que toca na bola para a endossar, já o seu destinatário está uns metros à frente da trajetória pensada pelo mexicano. A este lag no tempo de reação soma-se outro handicap: Herrera é daqueles jogadores que acumula psicologicamente os erros que comete. Parece que tem um Quetzalcóatl qualquer na consciência a gritar-lhe impropérios em loop assim que o mexicano faz o primeiro disparate do jogo. Está cansado e isso é evidente e André André, pelo que fez na segunda parte, mostrou ser uma opção mais viável nesta altura.

A falta de um 10: Pode parecer estranho tocar neste assunto num jogo em que a equipa até mostrou um desembaraço interessante no último terço. Mas isso também ajudou a perceber a falta que faz um jogador mais vocacionado para pisar terrenos mais próximos da linha avançada. Atualmente, há um conflito visível entre a mentalidade de jogo da equipa e a sua disposição táctica. Lopetegui pede extremos abertos, que funcionem como os melhores amigos da bandeirola de canto, mas o ponta-de-lança desta versão do FC Porto é frequentemente forçado a recuar para dar uma perninha na construção de ataques continuados. Este desposicionamento cria um desequilíbrio na área, onde várias vezes acaba por faltar o avançado para concluir aquilo que ele próprio iniciou. E isso é, essencialmente, o papel de um... 10.


Momento: Minuto 56'. Após canto para o Vitória, Cafú remata colocado, mas a bola bate nas pernas Alex Sandro. Através de uma das câmaras colocadas por detrás das redes de Casillas, é possível ver que a bola estava na trajetória da baliza, sendo improvável que o guarda-redes portista a pudesse travar. Seria o empate para os vimaranenses, que estavam por cima nessa altura, e podia ter complicado seriamente o jogo para o FC Porto.


Pormenor: Foda-se, a sério? Assobios ao intervalo? Depois uma primeira parte bem conseguida da equipa, frente a um adversário que se reforçou bem e nos roubou pontos a época passada, tudo o que uma -- felizmente -- minoria de adeptos tem para oferecer à equipa é um recital de silvos mais irritante do que um concerto do Toy com uma orquestra de vuvuzelas? A menos que o João Gabriel estivesse a passar por detrás do estádio naquela altura e eu não tenha visto, este escabeche é dispensável.

EDIT: Texto elaborado ontem. Já mais a frio, e depois de o nosso caro Miguel Lima do Tomo III me ter alertado para o facto de os assobios se destinarem, segundo OJOGO de hoje, ao árbitro da partida, Fábio Veríssimo, por ter terminado a primeira parte mais cedo, faço mea culpa do supracitado. A questão dos assobios é delicada para mim e nós sabemos que uma pequena facção do tribunal do Dragão às vezes é demasiado implacável para com a equipa. De qualquer forma, erro meu. Mil desculpas.

@


In a nutshell, abrir o campeonato com uma vitória é sempre positivo. Não garante nada, mas dá uma importante dose de confiança extra para a próxima jornada, onde temos um borrego para afogar antes que nasça.

O meu desejo daqui para a frente é que todas as flash interviews do FC Porto sejam em francês. Não vou perceber ponta, mas será bom sinal.

sábado, 15 de agosto de 2015

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Quando eu era miúdo, não havia Porto em Lisboa.

Havia o porto, os morcões, os tripeiros e os andrades. Havia os sarrafeiros, os cão-peões e os cabrões. Havia pena e deboche, desprezo e desdém pelo Norte.

Ser de FC Porto, aqui, era inconcebível. Quase como ter uma trissomia futebolística, ser membro da carbonária ou ter um guilty pleasure.

Porque "a melhor coisa que há no Porto é a placa a dizer Lisboa". Perdi a conta às vezes que ouvi essa frase.

Morava nas traseiras da capital, num dos mil bairros da periferia, antros para onde a ditadura varria o entulho social que o pós-25 de Abril deixou a apodrecer lentamente.

Era um bairro com resquícios da austeridade de '83 e um leve perfume a miséria. Os prédios engalfinhavam-se em ruas apertadas como os dentes de uma criança a lutar por espaço nas gengivas. As casas, baixas, gordas e mal-feitas, como os homens que passavam tardes inteiras debaixo do toldo dos cafés a contemplar a infinitude da avenida; odor a tabaco ressequido de manhã, cheiro a gasóleo e fritos à noite.
Era assim.

Ali não havia ringues; jogávamos à bola na estrada, com uma Mitre comprada no Ibérico e calhaus a denunciar as balizas, que tinham de ser desfeitas de cada vez que passava um carro.

Esse futebol de rua só tinha duas cores: vermelho e verde. Ou eras do Benfica ou do Sporting, mesmo que não fosses de nenhum. Às vezes, era esse o critério para fazer as equipas.

Alguns ostentavam as camisolas dos respectivos clubes, réplicas marteladas, adquiridas pelos pais na Feira da Ladra por um preço mais curto.

Lembro-me daquele dia, algures em 1994. Tinha sete anos, idade para fazer merda e, por isso, passava metade do tempo de castigo. E castigo para mim traduzia-se em não poder sair de casa. O meu brinquedo favorito em miúdo foi sempre a liberdade.

Como não podia ir dar uns toques, fiquei na sala a enfadar-me em frente a uma televisão sem comando e ainda senhora da sua programação. Estavam a passar resumos dos jogos de uma nova e inovadora Liga dos Campeões. Só que eu era um bocadinho "osvaldo" e não ligava a futebol. Pelo menos, não ao factor clubístico em si. Nessa altura, nem sequer tinha clube. Gostava de jogar, não de ver.

Quando as palas do Weserstadion surgiram no ecrã da Telefunken castanha do meu pai não liguei muito. Mais um resumo. O campeão da Alemanha contra o campeão português. Werder Bremen x FC PortoMeh.



Fiquei hipnotizado. Confesso que foi a primeira vez que me arrepiei com o futebol.

O pontapé de Rui Filipe agarrou-me: que bilhete! Ele que viria a deixar tantas saudades nesse mesmo ano. Foram precisas uma década e o advento da internet para perceber que aquele pontapé fortuito tinha sido desviado. Shame on me. But still, what a strike!

Couto, que patrão. Sob aquele cerco verde lima após o nosso primeiro golo, mostrou uma frieza assinalável. Dei por mim a desejar que cortasse mais uma bola, sempre que ela pingava na área. E ele cortava.

Segunda parte, golo de Secretário. A classe com que meteu o lateral alemão no bolso fez-me pensar que um dia gostava de vir a ter aqueles pezinhos. Mais tarde, arrependi-me. Mas ainda hoje considero que foi dos laterais mais sólidos e consistentes a vestir a nossa camisola.

Querer querer, queria ser como Domingos. Entrou para dourar ainda mais aquele capítulo e deixar o campeão da Alemanha de palmas coladas no rosto.

E Kostadinov, Drulovic, Baía e todos os outros. Magníficos!

Não quero enganar ninguém. Não foi nessa tarde que passei a ser o portista mais ferrenho do mundo ou coisa que o valha. Mas a química foi irreversível. Como aquela mulher com quem trocaste um dia o olhar mais intenso da tua vida e, quando deste por ti, estavas no altar à sua espera. Assinei a minha entrega naquele momento.

Ser portista em Lisboa nunca foi fácil. Qualquer dragão lisboeta da minha geração saberá certamente o que quero dizer. Desde '94 cresci a defender este brasão com todas as minhas forças em território adversário. Fui até onde consegui. Nunca tive qualquer receio ou reticência em afirmar o meu portismo, mesmo sabendo que isso tinha inevitavelmente consequências. Reagi sempre. Até já levei na tromba por isso.

Sim, eu sei. Sou um bocado doente por este clube. Racional, mas louco. É quase paradoxal.

É por isso que a cada nova época que se inicia sinto-me criança outra vez.

Como se fosse portista pela primeira vez, como se esta ligação renovasse contrato, com a mesma emoção de sempre, por mais uma época, ainda que saiba que o contrato é vitalício e que estou vinculado a esta paixão, por vontade própria, até à morte.

Hoje, já não tenho sete anos. Cresci, estou diferente. Lisboa também.

O FC Porto deixou de provocar indiferença, passou a marcar a diferença. O FC Porto já não é tabu, mas assunto central. Há respeito, há admiração, há raiva. Há camisolas azuis-e-brancas nos ringues, nas praias, nas ruas, nas escolas. Há mais azul na capital. Há FC Porto em Lisboa.

Caro Lope, dentro de poucas horas (re)começa a saga de sucesso que o FC Porto tem escrito nas últimas décadas. Peço-te: não belisques o que exigiu tanto sacrifício a erguer por parte daqueles que, como eu, sofrem com este amor à distância.

Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Uma vez mais.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O político e o lacaio

O líder do Conselho de Arbitragem da FPF está para o FC Porto como o ministro das Finanças alemão está para a Grécia.

Na Alemanha, Wolfgang Schäuble é o "homem do fraque" do executivo de Angela Merkel. Não gosta de países endividados nem da dívida dos países. E odeia profundamente os que pisam o risco, mesmo quando são empurrados pelo próprio governo alemão.

Na Zona Euro, Schäuble é judeu nas contas e nazi nas regras. É também uma espécie de Robin Hood do avesso, que desfalca o pobre para alimentar ainda mais o rico. Serve o poder central para poder manter o seu enquanto for possível.

Schäuble eufórico em reunião do Eurogrupo.
Exerce um dos cargos de maior responsabilidade na Europa, o que não significa que seja responsável. Na verdade, o ministro alemão tem um problema. Tem dois grandes amores na sua vida: a lei e os números. Mas também gosta de luvas.

No fundo, Schäuble é um político.

Por isso, Schäuble não gosta de gregos; e os gregos não gostam de Schäuble.

Em Portugal, Vítor Pereira não trata das contas da FPF nem da Liga, mas tem baralhado as contas no campeonato nacional.

Também se comporta como "moço de recados" de alguns dos poderes instituídos no futebol português, numa altura em que as principais instâncias, nomeadamente a Liga, estão cada vez mais tingidas doutra cor.

Vítor Pereira lidera um órgão que tem a responsabilidade de garantir transparência às competições nacionais e credibilidade da arbitragem portuguesa, mas promove um sistema de nomeações desequilibrado, que favorece mais uns clubes do que outros e que só denigre a imagem de quem apita.
Vítor Pereira ao telefone.

Numa altura em que o sorteio dos árbitros seria uma medida transitória importante, para preparar o regresso a um modelo de nomeações mais coerente, limpo, devidamente estruturado e isento, Vítor Pereira cravou as unhas na sua bandeira e resistiu debaixo do guarda-chuva da FPF.

Houve quem pensasse que o "cartão alaranjado" fosse suficiente para forçar o actual presidente da CA a realizar menos telefonemas antes de certos encontros, mas não foi. Pelo contrário, fez ricochete. Para alvos bem definidos.

A primeira bala chama-se Fábio Veríssimo.

32 anos, 9 partidas no principal escalão, um ano de primeira Liga, zero jogos dos três grandes. Bela bagagem para o jogo mais complicado da ronda inaugural do campeonato. Belo cartão de visita para um sempre efervescente FC Porto x Vitória SC.

E nem vale a pena falar da "internacionalização" pela porta do cavalo ou do registo de amostragem de cartões do rapaz, que faria Martins dos Santos parecer um árbitro do Tibete. 

Com esta nomeação, camuflada de retaliação, Vítor Pereira mostra que, tal como Schäuble, não possui qualquer sentido de responsabilidade e idoneidade para o cargo que representa. E tal como Schäuble, Vítor Pereira também tem várias paixões na vida, mas nenhuma delas é a arbitragem.

No fundo, Vítor Pereira é um lacaio.

Por isso, Vítor Pereira não gosta do FC Porto; e o FC Porto não gosta de Vítor Pereira.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O elefante na sala

Irónico. No dia em que o FC Porto disse oficialmente "olá" aos sócios e adeptos no Estádio do Dragão, foi o "adeus" de Adrián López um dos pontos mais badalados da festa azul-e-branca.

Adrián não foi apresentado e, embora não tenha almoçado o mesmo que Ciani, está naturalmente de saída, algo entretanto confirmado pelo próprio Lopetegui.

A notícia em si não é novidade. A utilização do jogador na pré-época apontava para este desfecho. Mas não deixa de ser um alívio.

Não apenas porque o jogador estava claramente desenquadrado com a realidade do FC Porto, não se vislumbrando sinais de uma epifania iminente, como era/é um dos atletas com mais peso na folha salarial do clube.

Mas acima de tudo, porque o FC Porto decidiu finalmente olhar para o elefante que havia na sala.

Adrián chegou há um ano com carimbo -- e preço -- de craque. Vinha directamente do vice-campeão europeu, onde tinha somado 39 jogos em 2013/2014, às ordens de Diego Simeone. Era a principal alternativa a David Villa, jogando normalmente como segundo avançado no apoio ao ponta-de-lança, sendo ainda uma das opções aos contratempos de Diego Costa, como aconteceu na final da Liga dos Campeões, frente ao Real Madrid.

Foi um jogador que mereceu total confiança de El Cholo -- que não é fácil de agradar --, sendo o suplente mais utilizado pelo técnico nas liga espanhola (22 jogos) e europeia (9).

E se mesmo assim o currículo do jogador levantasse dúvidas, a história recente encarregava-se de dar razão aos mais optimistas. Afinal, José Antonio Reyes e Eduardo Salvio também não eram titulares no Atlético.
Chegou em 2014, mas nunca parece ter "chegado".

Sabia-se que a contratação de Adrián envolvia um certo grau de risco. O preço pago pelo FC Porto na operação foi um fantasma que a comunicação social nunca se cansou de alimentar. Mas se os "11 milhões por 60% do passe" já assombravam mesmo antes de o jogador aterrar no Porto e o valor e talento do avançado nunca foram questionados, já o compromisso do mesmo para com o projecto foi matéria que levou muito tempo até ser encarada de frente.

É natural que toda a atmosfera à volta da contratação de Adrián lhe tenha dado uma margem de tolerância bastante maior do que a de outros jogadores. Aconteceria o mesmo com Imbula. Aconteceu com Herrera durante algum tempo. Jogadores nos quais a estrutura portista deposita tamanha confiança que acredita que dificilmente flopam.

Mas a verdade é que Adrián foi um tabu que se arrastou durante demasiado tempo. E não pela sua escassa utilização, lesões, pela falta de enquadramento na táctica de Lopetegui ou inadaptação à cidade ou ao país. O que realmente transformou o jogador num caso cada vez mais constrangedor foi a sua incompatibilidade com o espírito e a filosofia portista; que é o mesmo que dizer: falta de empenho e vontade.

Sim, Adrián López podia e devia ter feito mais. Não melhor, apenas mais. Para si e para o clube. Compensar com raça o que não conseguia dar em contributo prático.

E se, mesmo assim, o sucesso colectivo não estivesse no topo das suas prioridades, aproveitar o espaço e o estatuto que trouxe na bagagem para o FC Porto, a montra europeia e a oportunidade de ganhar enriquecer o palmarés para relançar a própria carreira.

Tivéssemos um pitbull em rehab -- e não um koala com sono -- em campo e Adrián não seria a bota incómoda que a estrutura e a equipa técnica portista demoraram a descalçar.

Nós, a SAD e o próprio Lope esperávamos todos muito mais. Contudo, a decepção com Adrián (aliada ao preço que custou) foi tão pesada que o transformou num elefante demasiado gordo para uma sala tão curta. Até anteontem.

Ao atleta, votos de boa sorte na sua próxima aventura, por empréstimo ou em definitivo. É novo, ainda vai a tempo. Mas um conselho: não é só o jogador que tem de caber no clube, o clube também tem de caber no jogador.